"I don't think you trust in my self righteous suicide, I cry when angels deserve to die" cantarolava ele, enquanto o cigarro queimava lentamente, aquele pequeno pedaço funesto de pecado contido; e sua mente ia longe, além das blasfêmias e imprecações que ele se arrependera de soltar de sua garganta, seu arrependimento pesava ali em seu pulso direito na cicatriz arroxeada que uma certa adaga em forma de cruz deixara.
Tentava agora imaginar-se como estava: a jaqueta do Ramones que roubara de um punk viado que ameaçara jogar uma garrafa de uísque nele; uma camiseta sem cor e sem graça da coleção dele; uma calça puída e apertada até os testículos estourarem, a gosto dele, com a braguilha ainda aberta; uma pequena pistola prateada em suas mãos carregada com três projéteis, já havia gastado um; um tênis, desses duramente criticados, e usados por idosos doidos, com estampas de caveira; o cabelo bagunçado e longo, sujo e fedendo, seboso e marrom-cor-de-couro; a maquiagem borrada de cortesãs em seu rosto com a barba por fazer; o olho vermelho e profundo de quem cheirou algum pó clandestino por horas da madrugada; o cheiro do coito no seu corpo; aquela sensação de ânsia de si mesmo que vinha do peito e era só uma impressão sensorial esquisita de seu cérebro.
Cérebro. Aquele órgão ininteligível que permitira-o se apaixonar, provar de coisas boas e pacificadoras e depois mandá-las para o inferno, quase indo junto, pois permitira também as coisas satânicas e mundanas adentrarem. Deveria adestrar seu cérebro.
Adestramento, aliás, lembrava-o da tortura que ele causou àquela terrível moça, Luise, se não lhe falhava a memória. Aquilo causava gargalhadas nojentas em seus amigos insanos e bêbados, inconscientes da dor que aquilo foi para ele; às vezes, eles até deliciavam-se observando o coração dela que ele guardara num freezer de sua mansão de luxúria.
A mansão de seu dinheiro. O dinheiro de sua perdição. A perdição de sua vida. Era aquilo que resumia o que havia acontecido, o que ele havia permitido acontecer; ou seu cérebro, ele achava mais fácil culpar o próprio cérebro. Foi mimado na infância, revoltado na adolescência e agora, na vida adulta e madura, havia perdido-se quase que para sempre nas delícias oferecidas por um assolador perigoso. Tudo por causa daquele maldito dinheiro; se não fosse pelas bebidas para sempre deliciosas que ele podia ostentar e se satisfazer, ele teria implorado para ter nascido pobre. Pobre de pedir esmola e sofrer a cada dia. Como se sofrer a cada dia fosse inevitável mesmo com a absurda e decrépita fortuna guardada em seu porão na forma de móveis, jóias e toda a sorte de moedas de toda a sorte de países.
A propósito, ele lembrava-se agora que já havia orado uma vez, na frente de uma imagem ridícula daquela religião famosa da qual fugia-lhe o nome para ser pobre. Orar, religião: essas coisas que mais o atormentaram e formaram nele um constante receio; dúvida ainda presente de seus devaneios. Estudara filosofia justamente para ver se conciliava Deus à sua vida e não conseguira, até hoje. Mas ele não ia desistir, não, nunca; não enquanto lesse em alguma placa de mendigo profeta que Deus ainda acreditava nele.
Acreditava em qualquer coisa mesmo, pelo menos ele achava, depois que acreditou em Melissa, aquela puta de seios macios e cabelos cor-de-fogo. Ah, mas era impossível não cair naquela tentação e se pudesse voltar no tempo, cairia de novo. A dor de uma ilusão amorosa valia o sexo feito antes das alianças terem sido jogadas no esgoto. Tudo bem, ele tinha dinheiro para comprar alianças e colocá-las até o último lugar possível de Melissa. Mas nesta brincadeira mundana, o seu cérebro permitira-o apaixonar-se. Durante três anos, ele foi tudo para ela e ela foi tudo para ele e, de repente, aquela voz lhe diz no meio de uma de suas noites regadas à cocaína e conhaque que havia feito um ménage com dois empresários suecos bissexuais de visita à Londres. Foi demais para ele. O mais engraçado é que ele já havia tirado a vida de três outras damas, aprimorando suas técnicas de tortura e assassinato a cada uma delas; todas ficavam impunes mesmo. Mas não Melissa. A ela ele permitira a vida, pois com o dinheiro e os amigos que tinha, poderia causar a maior dor da vida dela. Ela até sabia disso, rira do coração congelado de Luise. Como ele podia esperar, afinal, que uma vadia dos bares e do rock como ela adequar-se-ia à monogamia.
Por fim, saiu xingando Deus e o mundo, durante semanas, meses, anos talvez, até encontrar-se ali, de aparência deplorável, sentado no telhado negro de alguma biblioteca importante do centro de Londres, apenas refletindo e fumando. Um guarda até advertira-o, mas um tiro o calara. Calado assim como ele estava. Num silêncio suicida, ajuntando coragem para subir na Tower Clock e pular para sua liberdade. No fundo, ele sabia que não queria a morte, queria apenas ser salvo. Eis que surge um cheiro.
"Seu cheiro fétido de rosas rosas", ele recordava-se do poema feito na noite seguinte à deixa de Melissa, na noite que ele mais bebera em toda sua vida. O resultado havia sido uma ressaca de três dias, um triste episódio que ainda lhe causava risos. Mas aquilo era impossível e se mexendo pela primeira vez em horas, ele olha para trás e a primeira coisa que vê é o cabelo, aquele cabelo lindo. E, por mais impossível que pudesse aparecer, Melissa não estava como sempre, estava melhor, com um quê de religiosa, diria ele.
Ao invés das bermudas jeans com meias-calças rasgadas, ela usava uma calça normal boca-de-sino. Ao invés das camisetas de bandas do clássico hard rock, ela vestia uma blusa comum branca enfiada dentro da calça com uma espécie de manga adjacente. Ao invés dos coturnos, ela calçava uma bota simples e preta que ia até o calcanhar. O detalhe imperceptível que mudava todo o cenário de Melissa que ele tinha em mente era a gargantilha formada por uma corrente de cruzes. E seu cabelo, era ainda o cabelo que ele amara durante três anos.
- Então, você se perdeu, não foi? George - um dos seus comparsas, um gordo sardento que adorava chutar a barriga de velhinhos - me contou.
- Como você ainda se comunica com aquele balofo adoidado? - ele gargalhava falsamente.
- E a sua filosofia? Já encontrou uma resposta? - sua voz era calma.
- Que indagações são essas, Melissa? Acha que eu não me esqueço daquela sua orgia com aqueles suecos de merda? Não te causei nenhuma dor - sua voz falhara aqui - mas se você deseja estar congelada em meu sótão junto com o coração de Luise, você pode me avisar.
- Você quer ser salvo deste mundo, Oliver? - ela falara o nome dele; recitara, para falar a verdade, e aquilo quase o fez sorrir: ouvir o nome dele sendo pronunciado por aqueles lábios delineados pelos deuses gregos. Ele ajoelhara.
- Você encontrou Deus, Melissa?
- Está em mim. Está em você também. Quer achá-lo? - ela foi até ele, cariciou seus cabelos. Ele olhou para ela. Olhou no fundo daqueles olhos castanhos misteriosos como a escuridão.
- Me salve de tudo que há ruim neste mundo.
- Eu vou te salvar. Aquilo - o ménage - que você acabou de citar foi a gota d' água, fez você dizer coisas das quais se arrependeu não foi? - ele continuava em silêncio.
- Aquilo me fez encontrar quem você procurou por tanto tempo. Posso te mostrar? - ele balbuciou um sim, como uma criança assustada. Então, ela tirou uma adaga daquela calça estranha, a mesma adaga que um padre maluco erguera contra ele, aquela adaga em forma de cruz. Ela enfiou a adaga em seu peito. E sorriu. Aquele sorriso lindo dela. Então Oliver fechou os olhos e calara-se para sempre. Ele amava Melissa e, na realidade, ele havia se matado.
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